Crianças

sexta-feira, 30 de abril de 2010

O idoso depositou a xícara de chá sobre o pires que se encontrava sobre a mesinha no centro da sala. Acomodou-se em sua poltrona. O recém-formado médico olhou atentamente cada movimento inocente do velho homem.

— Aquelas crianças, meu jovem doutor.
— Quais crianças, senhor?
— As que perderam o brilho do olhar.

O jovem ajeitou um fio de cabelo que insistia em cair sobre seus olhos. Pensou, mas não conseguiu entender o que dizia seu companheiro de conversa.

— Não compreendo.
— Meu caro doutor, vou lhe dizer: todas as crianças deste mundo tiveram o brilho arrancado pela vida e pelo tempo. Não deixe isto acontecer, está bem? Não com a sua criança.
— Não tenho filhos, senhor...

O velho, que bebia mais um tanto de chá, separou a xícara de seus lábios rapidamente e soltou uma gargalhada.

— Acho que você ainda não entendeu, meu rapaz... — o velho dizia olhando para a fumaça que saía tímida do recipiente — Olhe seu reflexo no espelho. Visualize o olhar das crianças caídas dentro do seu próprio olhar e responsabilize-se por revivê-las. Não se acomode diante desta epidemia que vem destruindo os brilhos ao redor do mundo e ao longo da história da humanidade.

Nunca deixe o pouco da criança dentro de você que ainda te ilumina morrer.

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